Entrevista na Rádio Senado

Entrevista na Rádio Senado

Fui entrevistado na Rádio Senado no programa Autores e Livros pelo apresentador Anderson Mendanha em 03 de agosto de 2026. Falamos sobre como foi a criação do livro “Vida Que Segue”, como foram as primeiras saídas pra fotografar e como foi que eu parti da exposição para o desenvolvimento do conceito do livro.

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Segue abaixo a transcrição da entrevista

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Passamos a apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica semanal sobre o mundo literário. 

Olá pessoal, começa agora mais um Autores e Livros Dose Extra. Sou Anderson Mendanha e hoje vamos falar de quando a fotografia se transforma em memória coletiva. A pandemia da Covid-19 mudou a rotina de todo o planeta e deixou marcas que ainda fazem parte da nossa história. Mas além dos números e das manchetes, ficaram também as histórias das pessoas que enfrentaram aquele período nas ruas, trabalhando, lutando e tentando seguir em frente. Essas memórias estão reunidas no fotolivro Vida que Segue, a pandemia da Covid-19 nas ruas do Brasil, do fotógrafo e artista visual Maneco Magnesio Guimarães. A obra combina fotografia E sobre esse trabalho, a gente conversa aqui agora com o Maneco. Maneco, seja muito bem-vindo. Olá, tudo bom? Conta pra gente, como é que nasceu esse projeto? Ele vem de uma exposição, depois se transformou em livro. Em que momento você percebeu que essas fotografias precisavam ganhar uma publicação? 

Olá, feliz pelo convite. 

Então, assim, eu comecei a fotografar em julho de 2020, no auge da pandemia, e pelo interesse de entender o que estava acontecendo nas ruas. Eu sou fotógrafo de rua, fotógrafo urbano, já há muitos anos, e como eu já tinha esse trabalho, surgiu a necessidade de sair para fotografar. E aí eu comecei a ver que as coisas eram muito mais complexas do que eu imaginava no meu universo de estar fazendo lockdown, estar em casa e tudo. Aí, assim, eu fiz, coletei muito material durante dois anos, né, de fotografia e recebi um convite para montar uma exposição e aí eu entendi que esse material, ele tinha uma riqueza, né, além da riqueza estética, mas uma riqueza de memória, né, para trazer sobre esse momento. E partindo dessa organização para a exposição, dessa

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essa curadoria, eu voltei, retomei a ideia de fazer um catálogo da exposição. E à medida que eu fui pesquisando meus arquivos para fazer esse catálogo, eu percebi que eu tinha uma quantidade de material tão grande que o catálogo seria muito pouco para trazer essa memória e trazer essas questões para o nosso momento atual. E como já estava fazendo cinco anos do Covid, eu imaginei que construir esse projeto seria um caminho mais lógico, mais coerente para aquelas imagens. E assim eu construí o fotolivro. 

As imagens do livro, eles mostram trabalhadores, manifestações, ruas vazias, cenas de solidariedade. Quando você saía na rua para fotografar, o que que guiava o seu olhar e o que você procurava ali naqueles momentos? 

Então, assim, o que eu sempre procurei com a minha fotografia foi o humano, a humanidade. Eu venho de uma escola da fotografia humanista. E quando eu saí às ruas para fotografar, eu imaginava que encontraria as ruas vazias, totalmente vazias, sem ninguém circulando, pouquíssimas pessoas, mas o que eu encontrei foi o contrário, foram as ruas muito cheias, né, lotadas de trabalhadores. E ao ver isso, eu entendi que o trabalho que eu tava fazendo na rua era justamente trazer, né, fazer um recorte dessa vivência dessas pessoas trabalhando. Então, o que eu coletei de material foi muito mais, assim, do que eu imaginava, né, e essa relação do humano, ela ficou assim, gritava na rua, né? Essas pessoas circulando, esses movimentos, inclusive as manifestações, né? Que a gente lidava com as questões muito graves de falta de vacina, de auxílio emergencial, a falta desse auxílio e eu via no rosto das pessoas o medo, o pavor, assim, de se contrair a doença, mas a revolta também, né? Por estar, assim, totalmente abandonado

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naquele momento mais grave. Então foi mais ou menos isso que eu me conectei com isso. 

E como é que foi ao sair na rua e encontrar essa realidade? O que mais te chamou a atenção ao fotografar? 

Assim, o principal ali naquele momento era essa sensação de medo. Eu sentia medo e as pessoas que eu fotografava também estavam com medo. Mas existia também um aspecto da sobrevivência, né? Então me chamava a atenção, assim, a gente, por exemplo, né? Eu sou de uma família de classe média, tenho uma vida de classe média, poderia fazer lockdown, poderia ficar em casa, né? E mesmo com medo, eu sabia que eu ia estar bem protegido. Mas quando eu encontro na rua as pessoas ali tentando sobreviver sem poder se isolar, é… E eu percebi, assim, até um desespero, sabe? De muitos ali. Então, essa foi o que mais me impressionou, assim, ao sair, sabe? Era essa força, assim, de luta pela sobrevivência mesmo, né? Até nas manifestações, o recado, o que eu percebia da rua era isso. 

O livro, ele reúne fotografias, manchete de jornais, temos textos, de diferentes colaboradores, mas eles não seguem ali uma ordem cronológica. Como é que foi escolher esse tipo de construção? Como é que foi separar as imagens para o fotolivro? 

Então, esse trabalho é um trabalho de seis anos, cinco anos de trabalho, e eu ainda continuo trabalhando na divulgação do livro. Mas o trabalho grosso do trabalho foi feito durante cinco anos, dois anos coletando as imagens, depois a montagem da exposição e depois a diagramação e criação do livro. Dentro desse espectro de coletar o material, de organizar os meus arquivos, eu tinha mais ou menos cerca de 10 mil imagens que eu fiz durante todo esse período. Esse período de dois anos. Eu cheguei a ter cerca de 10 mil imagens e eu comecei a peneirar essas imagens, primeiramente para a exposição, então depois eu fui juntando as manifestações

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e outras fotografias de rua urbanas para compor o livro. Essa organização do livro é um pouco caótica por conta da situação que a gente passou também. A vivência da gente foi uma vivência dentro de um caos mesmo, um caos urbano, um caos na nossa saúde mental, várias situações mesmo das pessoas que ficaram isoladas por Covid, né? ficaram isoladas em casa, existia essa situação caótica, deu uma espera, parecia uma espera eterna até chegar a vacina, né? Pessoas que precisavam do auxílio emergencial e a gente vivenciou isso de uma forma muito pouco linear, né? Então, a minha intenção com o livro também é trazer um pouco dessa cronologia caótica, né? Então, uma coisa se conecta Uma outra muito mais por uma necessidade de contexto do que uma necessidade cronológica de tempo, de datas e tudo mais. 

E como é que foi revisitar as primeiras fotografias que você fez depois de tanto tempo? 

Olha, assim, foi um pouco assustador. Eu revendo as fotos, eu fiquei… muito chocado, assim, com o material que eu já tinha coletado, porque a gente, quando fotografa, né, você faz aquelas séries, aquelas fotos naquele momento, e você vai arquivando, né. E aí, quando eu fui revisitando, eu comecei a ter essa sensação de, né, voltou aquela sensação, sabe, aquela sensação que a gente sentia um pouco de não conseguir respirar, de estar sufocado dentro daquele espectro, as fotos foram me trazendo essa sensação também. E paralelo a isso, à medida que eu ia vendo as fotos, e assim, eu achava uma foto com determinada data, eu via que tinha ali uma manifestação ou um movimento urbano, e eu fui buscando as notícias relacionadas para contextualizar aquelas fotos. E à medida que eu vendo as notícias, eu fui ficando mais tenso, mais…

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A lembrança daquele momento foi ficando muito viva, né? Então, foi pouco sofrido, assim, coletar tudo isso, reorganizar todas as imagens, né? Para o livro, assim. Principalmente atreladas às notícias, né? 

Tem duas fotos que me chamaram a atenção, né? As duas estão lado a lado na páginas 72 e 73. A 72 traz um senhor sentado, olhando… de lado, com a máscara somente na boca, o nariz de fora, e na outra foto, uma senhora de idade, com o rabo de cavalo, os cabelos meios, os fios saindo ali do rabo de cavalo, com a máscara preta, as mãos cruzadas, as mãos de, já com a idade, né? Ela deve ter ali um pouco mais de 70 anos, e o que mais chama atenção é o olhar vazio dela. Essas duas fotos me impressionaram muito, porque retratam muito bem aquele período Desse livro todo, que foto mais mexeu com você? 

Bom, tem algumas imagens que realmente me deixam… Eu vejo como meio que um recado do que viria. Uma dessas fotos é a foto que está na página 23. Um senhor sentado no palco. ponto de um ônibus com um olhar completamente vazio, olhando assim para o nada, né? Ele não está olhando em direção basicamente a nada e eu, aquilo foi meio que para mim uma espécie de presságio assim, né? Do que viria assim, né? E a outra imagem que eu realmente, que é realmente forte para mim, é a dos dois sujeitos andando na Avenida Paulista com aquela camiseta Dita do Justiceiro, né? Tem uma… Ali, pra mim, era uma… Também uma… Antecipando o que viria através do que a gente sofreu com o governo Bolsonaro, né? Então, essas duas imagens, elas, pra mim, têm um pouco de uma visão do que aconteceria, assim. Apesar de que tem outras imagens que me dão uma certa esperança, sabe? A foto do rapaz andando de bicicleta

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na Avenida Paulista, né, sorrindo, olhando pra câmera e sorrindo, não é, assim, a princípio pode parecer assim, nossa, que irresponsável, não sabia, parecia que não sabia o que tava acontecendo. Pra mim é o contrário, assim, ela tem uma visão, assim, tem um aspecto de, né, tipo, um pouco de tipo assim, olha, assim, apesar de tudo, vai ficar tudo bem, né, a gente sabe pelo que a gente passou, que foi tudo muito, muito pesado, né, lembrar disso é muito difícil, Mas essa foto, ela é o oposto dessas outras duas que eu te falei, sabe? Ela me traz um pouco dessa… Aquece um pouquinho o coração, sabe? 

Já muito se disse que preservar a memória é uma forma de evitar repetir os erros do passado. Que reflexões que você espera despertar em quem vai folhear, que vai acompanhar o teu livro, Vida que Segue, agora, anos depois da pandemia? 

Bom, assim, a minha esperança era de que esse material, né, esse livro, ele trouxesse um pouco da lembrança do que a gente passou, né, realmente pra gente não repetir algumas escolhas que a gente fez naquele momento, né. Assim, a população brasileira escolheu um governante que não se importava com aquela, com a própria população que o elegeu, né, e E assim, a ideia de trazer o livro nesse momento, principalmente no ano eleitoral, é um pouco de falar para as pessoas assim, vamos pensar um pouquinho no que a gente vai escolher de novo nesse momento? Vamos tentar trazer, na verdade, a relação humana dentro da política, aquele que busca a melhora da população, não o contrário, que a gente continua vendo nos noticiários, né, a mesma postura vinda, né, daquele grupo que entrou no poder em 2018, né, então a preocupação é um pouco essa também, né, mas assim, por outro lado, eu acompanho, né, o que está acontecendo e eu, em muitos momentos, eu perco a esperança mesmo, sabe, eu sinto que a gente ainda tende a repetir muito do que a gente fez de, né

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certo, mas a gente fez de forma inconsequente também, sem pensar muito no futuro. Minha esperança é que a gente não repita isso. 

Muito bem, então. Maneco, e quem está ouvindo a gente que se interessou por conhecer mais do seu trabalho, adquirir o livro Vida que Segue, como é que ele faz? 

Olha, o livro está à venda na Amazon, é só procurar Vida que Segue, Maneco Magnesio Guimarães, você vai achar o livro, ele está à venda na Amazon, é o livro físico, eu não criei uma versão digital dele por conta de um trabalho fotográfico que o ideal é ser visto na mão, no papel. E ele também está à venda no meu site, magnesio.com.br/loja. Lá está à venda o livro, estão à venda alguns cartazes que eu fiz para acompanhar o livro, e também tem um link para que a pessoa eu posso comprar o livro mais barato com desconto via Pix. E é isso, ele está nesses espaços, nessas lojas. 

Muito bem, então, Maneco. Obrigado pela sua participação aqui. Parabéns mais uma vez por esse trabalho maravilhoso, magnífico mesmo. E que venham outras reflexões e que o livro realmente provoque pelo menos um sentimento de indignação em quem olha para parar e pensar que a gente pode fazer fazer diferente. 

Olha, muito obrigado pelo espaço, tá? Aqui na Rádio Senado eu tô bem feliz de poder falar um pouco sobre o meu projeto e falar pra vocês e obrigado quem tá ouvindo, né? Um grande abraço. 

Essa então foi a conversa com Maneco Magnesio Guimarães sobre o livro Vida que Segue a pandemia da Covid-19 nas ruas do Brasil. Esse livro tá disponível na Amazon e demais portais de livros direto ali com o Magnesio. Mais do que recordar um período difícil, Vida que Segue é um fotolivro que convida o leitor a refletir sobre o valor da memória. Em tempos de esquecimento acelerado, o livro lembra que muitas perdas poderiam ter sido evitadas e que compreender o passado é uma forma de proteger o futuro. Então a nossa dica hoje aqui, muito especial, é esse fotolivro. Vida que Segue, a pandemia da Covid-19 nas ruas do Brasil. Uma leitura para quem aprecia fotografia documental

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história contemporânea e obras que transformam imagens em testemunhos. E o Autores e Livros de hoje vai ficando por aqui. Sou Anderson Mendanha. Muito obrigado pela sua companhia. O programa contou com produção de Rosângela Tejo e trabalhos técnicos de João Lira. Até a próxima. Boa leitura. Acabamos de apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica sobre o mundo literário.

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